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11
February 2017

João Barradas Trio na Culturgest, Lisboa – Comissário: Pedro Costa

Folha de Sala por: Rui Eduardo Paes

Acordeão Absoluto

Se apenas ficássemos pelas aparências, o presente concerto na Culturgest do João Barradas Trio parecer-nos-ia
uma depuração da música contida no recentemente editado álbum Directions, em que o jovem acordeonista se faz acompanhar por André Fernandes, João Paulo Esteves da Silva e os mesmos André Rosinha e Bruno Pedroso que com ele agora vão subir ao palco, mais o convidado especial Greg Osby. Ou seja, algo de distinto, e muito provavelmente prenunciando o disco em solo absoluto que está prometido para o próximo

ano. A verdade é, porém, que Barradas não está propriamente a fechar o crivo da sua música, tirando elementos ao

orquestralismo do CD com que se estreou em nome próprio. À frente de um pequeno grupo ou a sós, essa dimen- são continua a estar presente. Daí, aliás, que utilize um acordeão MIDI, possibi- litando-lhe este tocar qualquer timbre que lhe apeteça. Um de que gosta é o do piano elétrico Fender Rhodes.

Ele próprio o afirma: «O trio foi a minha primeira formação enquanto líder, projeto esse que começou no final de 2012. Para ser preciso, a música do Directions nasceu de uma escrita direcionada para a secção rítmica, assim se estabelecendo um formato em que o acordeão é o instrumento líder.

A música deste meu primeiro álbum é uma espécie de “orquestração” desse trio. Quando retiramos a guitarra e o piano é como se tivéssemos acesso a uma redução pensada dessa mesma música. No meu primeiro disco a solo haverá igualmente uma redução, mas não tão centrada em mim como se pode- ria pensar: vai contar com composições de Nuno da Rocha, Carlos Azevedo, Hugo Ribeiro, Daniel Davis, Carlos Caires e André Santos, e terei como con- vidados Sérgio Carolino na tuba e Pedro Carneiro na marimba.»

Apenas com 24 anos de idade e já considerado um dos mais importan-
tes acordeonistas do mundo, João Barradas considera que a sua música tem atualmente duas faces: a do projeto Directions, que inclui esta apresentação em trio, tendo como base a improvisa- ção num enquadramento de bop / hard bop, e a música da sua banda Home, aquela que venceu o Prémio Jovens Músicos 2016 e que gravará já em

Janeiro. «Esta é mais orquestrada que o próprio Directions e tem influências do minimalismo, do rock e de composi- tores de música sinfónica», antecipa.

Porque o núcleo duro de Directions
é o trio que vamos ouvir, implícito está que Barradas dá às escolhas de Rosinha e Pedroso para o acompanharem uma importância especial: «Convidei-os
a eles por dois fatores. O primeiro é musical. Desenvolvi as minhas ideias
de composição e de improvisação e até as minhas ideias estéticas em sessões nas quais ambos participaram, e tanto eles como eu enquanto sidemen. São
os parceiros ideais, pois acreditam na direção musical em que me movo e posso discutir com eles as propostas que defendo. O outro motivo é pessoal. Se não é necessário haver empatia e ami- zade entre os músicos, quando existem o trabalho necessário à criação musical torna-se muito mais fácil.»

E que direção musical é essa, sabendo-se que o acordeão não é propriamente um instrumento jazzís- tico e que, quando surge no jazz, traz consigo referências diretas a Astor Piazzolla ou ao bal musette, não tendo
a música de João Barradas conotações assim tão óbvias? A resposta evita o
que já se vai dizendo por todo o lado, designadamente que este português está a contribuir decisivamente para uma (re)invenção do acordeão de jazz: «Fico surpreendido quando colegas acordeonistas e outros músicos de jazz referem que toco de maneira “diferente” e que até fujo aos “maneirismos” do instrumento. Na minha cabeça divido o extremo respeito por todas essas refe-

rências do acordeão (Astor Piazzolla, Eugénia Lima, Tommy Gumina, Richard Galliano) com o meu imaginário musi- cal (Wayne Shorter, Steve Coleman, George Gershwin, Herbie Hancock, Charles Ives, Ambrose Akinmusire, Lester Young). Penso que é a adição desses dois mundos que leva a essa dita “diferença”.»

O curioso é que Barradas não tem trabalhado apenas na área do jazz.
À semelhança de Carolino com a tuba
e de Carneiro com a marimba, move- -se igualmente nos domínios da música erudita. «Ainda não consigo explicar esta dualidade, nem saber se o jazz e
a clássica chegam a encontrar-se de forma mais literal no que faço. Acontece que essas duas famílias musicais
são as minhas duas paixões e vão de encontro ao perfil de músico em que
me revejo. Passo muito do meu tempo
a transcrever solos, por exemplo de Branford Marsalis, Kenny Kirkland, Woody Shaw e Sonny Stitt. Ao mesmo tempo, termino muitos dos meus dias
a olhar para partituras de compositores díspares como Michel Van der Aa e Claude Debussy. Apesar de não estar em condições de responder como se de uma certeza absoluta se tratasse, estou a ficar consciente de que essas influên- cias se juntam pelo menos nas minhas composições», admite. Isso está, aliás, patente em Directions, os elementos eruditos integrando-se numa lingua- gem jazzística que vai do bop original
à filosofia M-Base dos já mencionados Steve Coleman e Greg Osby, pelo cami- nho integrando alguns elementos de world music.

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De certa forma, há por aqui o visiona- rismo decorrente da idade deste músico e da sua condição de “menino-prodígio” do jazz, alguém que, a par de Ricardo Toscano, vem denotando capacidades muito acima do vulgar. “Visionarismo” no sentido de que tem uma visão muito própria da música e de que a persegue com entusiasmo e ingenuidade. «Há menos de uma semana fiz uma viagem de carro com o Ricardo e acho que as coisas se tornaram mais claras para mim com a nossa conversa. A nossa geração
é a primeira a crescer com a Internet, com uma oferta cultural vasta e diver- sificada em Lisboa, com um sistema
de ensino preparado para nos receber
e com oportunidades para a malta da nossa idade se revelar neste país. De certa forma, sinto que sou um “produto” da cena musical e social que temos em Portugal neste momento. Desde muito novo tive a oportunidade de partilhar
o palco com músicos e estéticas muito diferentes. Aconteceu este ano, por exemplo, estar um dia no Palco EDP
do Rock in Rio, no mês a seguir ir para Nova Iorque a fim de tocar com Rufus Reid, voltar para ser convidado por Tito Paris e, em outra semana, apresentar o Directions com Greg Osby», afirma.

Em Barradas há mais do que uma superlativa vocação musical – há ainda o facto de dispor de ouvido absoluto, particularidade que se traduz inevita- velmente na música: «Só podia, pois é a única maneira que tenho de perceber os sons. As pessoas com ouvido absoluto criam diferentes formas de perceber a harmonia e juntam diferentes discursos improvisados a essa grelha harmó-

nica. Do ponto de vista pessoal é algo que está completamente presente na maneira como improviso e no meu dis- curso musical.» Foi, de resto, essa con- dição física que o levou para a música. «O acordeão tornou-se na forma mais imediata para a minha expressão. Toco desde os 5 anos e improviso desde que me lembro. Desde os meus 19 sinto que posso transportar o que penso, oiço e escrevo para o acordeão», explica.

Foi com Sérgio Carolino, outro extraordinário músico português, que João Barradas gravou o primeiro disco em que podemos ouvi-lo, Surrealistic Discussion. É a sua grande referência: «Encontro nele um dos exemplos máxi- mos do que significa ser um instrumen- tista de topo. Tem toda a mística de um instrumento “não-mainstream”, aliada a um pensamento musical que surge do seu interesse por várias áreas da música e da cultura. Com ele, a tuba torna-se
o “sotaque” de um discurso extrema- mente pessoal. É esse o caminho que eu quero para mim. Ter as possibilidades do acordeão a favor da minha iden- tidade musical.» Quem introduziu o jovem no acordeão jazz foi, no entanto, João Frade, que para ele funcionou como uma espécie de antiprofessor.
«O João motivou-me a pensar “fora
da caixa”. Não tive aulas com ele no sentido “académico”… Temos uma diferença de 10 anos e ele aconselhava- -me ou dava-me CDs para ouvir, frases que transcrevia e ideias para impro- visação. Na verdade, faz parte de três acordeonistas que me marcaram muito, sendo os outros Nelson Conceição e Pedro Santos. O meu primeiro professor

de acordeão no jazz foi a pianista Paula Sousa, quando eu tinha 15 anos. Agarrei em todas as informações que eles me deram e juntei-as ao que ouvia e ao

que tocava, que muitas das vezes não era da mesma estética que me tinham proposto», recorda.

Aparentemente, no circuito do jazz
já não se vislumbra o preconceito rela- tivamente ao acordeão que era de regra ainda não há muitos anos: «Vivo um período muito feliz nesse aspeto. Sinto uma enorme curiosidade pelo instru- mento e pelas possíveis abordagens do mesmo na música urbana dos nossos dias. Quero acreditar que a personali- dade musical, apesar de passar sempre pelo instrumento que a expressa,
se sobrepõe a qualquer espécie de “preconceito”, seja ele qual for.» O seu acordeão MIDI tem, inclusive, intrigado o público: «Surge da vontade de querer explorar novos sons, sons que não são possíveis de realizar com um instru- mento acústico de qualquer tipo.»

Barradas vai tocar na mesma sala
em que, há uns anos, se apresentou o acordeonista francês Pascal Contet,
em duo com Carlos “Zíngaro”, e que atua habitualmente nos domínios da improvisação livre, da música con- temporânea e do experimentalismo.
É um músico que conhece bem e que admira… «Ele mudou o rumo do nosso instrumento. Tenho uma história muito curiosa com o Contet. Veio a Lisboa passar férias e alguém lhe disse que estava um acordeonista da nova cena
do jazz nacional a tocar em trio no CCB. No fim do concerto dirigiu-se ao meu camarim e tive a honra de conhecer pes-

soalmente este grande nome e receber palavras de apreço e de força que me deixaram ainda com mais vontade de fazer a minha música. Continuamos em contacto.»

Respeito dedica também João Barradas aos acordeonistas Gil Goldstein, Manu Comté, Claudio Jacomucci, Inaki Alberdi e Mika Vayrynen, mas as suas maiores influências no jazz vêm de outros instrumentistas, e para além dos aqui já referidos acrescenta nomes como Kurt Rosenwinkel, Andrew Hill e Buster Williams: «Sou um ouvinte compulsivo de todos eles. Raramente oiço acordeo- nistas de jazz, aliás.»

O que se segue? «Na primeira semana de Janeiro o trio segue para o Festival de Jazz de Munster, na Alemanha. Na semana seguinte começam os concertos com o meu novo grupo, Home, com música minha. A composição ganhará maior importância neste projeto, assim como a exploração de novos caminhos na improvisação, pelo menos para mim.» Cá estaremos para ouvir este acordeão “absoluto” e orelhudo, que muito promete…

Rui Eduardo Paes

Ensaísta, crítico de música, editor da revista online jazz.pt

Fotografias de Alfredo Matos

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